Reflexões

A vida é maior do que a próxima notificação

Figueira de grande porte em uma área arborizada do parque.

Arte e natureza na vida moderna talvez sejam mais importantes do que parecem, principalmente em uma época em que precisamos nos adaptar o tempo inteiro.

Existe um tipo de cansaço que não vem apenas de trabalhar demais.

Ele vem de precisar acompanhar mudanças sem parar.

Novas ferramentas, novos formatos, novos métodos, novos algoritmos. Aquilo que funcionava há pouco tempo muda, desaparece ou precisa ser reaprendido. Em alguns trabalhos, já não nos adaptamos algumas vezes ao longo da vida. Nós nos adaptamos várias vezes durante o ano, durante o mês e, às vezes, durante a mesma semana.

A tecnologia e esse sistema de adaptações desenfreadas que vivemos hoje podem enlouquecer.

Natureza e arte são o remédio.

Não porque façam os problemas desaparecerem, mas porque impedem que a nossa cabeça comece a acreditar que os problemas são o mundo inteiro.

Quando a rotina parece ser a vida inteira

Às vezes ficamos tão imersos no trabalho, nas notificações, nos compromissos e em tudo o que precisa ser resolvido que a nossa cabeça começa a acreditar que a vida é só aquilo.

Uma mensagem que ainda não foi respondida.

Um problema que surgiu de repente.

Uma ferramenta que mudou.

Uma decisão que precisa ser tomada.

Uma preocupação que nos acompanha durante toda a semana.

Essas coisas são reais. Algumas são importantes. Outras realmente precisam da nossa atenção.

Mas são apenas uma parte da vida.

Quando passamos tempo demais dentro do mesmo contexto, perdemos essa proporção. Parece que não existe nada além daquilo que está diante de nós naquele momento.

É por isso que algumas experiências me fazem tão bem: caminhar em silêncio, observar a natureza, consumir arte, ouvir música e ler livros que me levam para outros mundos, outros tempos e outros ambientes.

Elas me lembram que existe mais.

Muito mais vida.

A figueira que observo há anos

Existe uma figueira no parque que observo há muito tempo.

Ela não é uma das árvores catalogadas do local. Pelo porte e pelas características que apresenta, acredito que seja uma figueira nativa, diferente de outras figueiras mais novas e de espécies identificadas, provavelmente inseridas posteriormente durante projetos de arborização e gestão ambiental.

Seu tronco tem mais de três metros de circunferência, pelo que já pude estimar.

Eu não sei exatamente quantos anos ela tem. Talvez ninguém saiba.

Mas não me surpreenderia se algumas árvores daquela área tivessem mais de trezentos anos.

Sempre que olho para essa figueira, sinto uma coisa muito específica: respeito.

Não é apenas pelo tamanho.

É respeito pelo tempo.

Pela continuidade.

Por tudo o que aquela árvore provavelmente atravessou em silêncio enquanto gerações inteiras nasceram, viveram e se foram ao seu redor.

Ela já estava ali antes de quase tudo o que hoje ocupa a nossa atenção existir.

E, provavelmente, continuará ali quando aquilo que hoje parece tão urgente já tiver sido completamente esquecido.

Arte e natureza não são fuga da realidade

Daqui a cinquenta anos, é muito provável que aquela figueira ainda esteja no mesmo lugar.

Alguém ainda estará caminhando por aquele caminho.

Alguém poderá descansar sob a sua sombra.

Crianças que ainda nem nasceram conhecerão aquele parque. Novas famílias existirão. Outras histórias estarão começando.

A vida continuará.

Quando penso nisso, aquilo que ocupa a minha cabeça durante uma semana volta a ter o tamanho que realmente possui.

Não deixa de existir.

Mas deixa de parecer tudo.

É comum tratar arte e natureza como formas de escapar da realidade. Eu sinto justamente o contrário.

Elas nos devolvem à realidade.

Não apenas à realidade dos e-mails, das contas, dos prazos e das tarefas, mas à realidade inteira. À vida realmente viva, que continua acontecendo muito além das telas.

Um livro nos leva para uma época que nunca vivemos.

Uma música dá forma a sentimentos que talvez não conseguíssemos explicar sozinhos.

Um filme nos permite enxergar a vida pelos olhos de outra pessoa.

Uma pintura preserva o olhar de alguém sobre um instante que já passou.

Uma árvore antiga nos coloca diante de um tempo muito maior do que o nosso.

É aí que vejo a importância da arte e natureza na vida moderna: elas nos conectam com outros contextos e quebram a ilusão de que o contexto em que estamos presos hoje é o único que existe.

A arte não nos afasta da realidade. Ela nos devolve a realidade inteira.

Os problemas são reais, mas não são toda a realidade

A tecnologia faz parte da minha vida e do meu trabalho. Eu reconheço tudo o que ela permite criar, resolver e transformar.

O problema não é a tecnologia.

O problema começa quando ela se torna o único ambiente que a nossa mente frequenta.

Quando todas as referências vêm das mesmas telas.

Quando até o descanso acontece dentro de um aplicativo.

Quando a nossa atenção permanece cercada pelas mesmas preocupações, mesmo depois que o trabalho termina.

Aquela notificação que parece tão urgente hoje será irrelevante daqui a algum tempo.

Aquele e-mail será esquecido.

Aquela ferramenta talvez nem exista mais.

Mas temos vivido ao redor dessas coisas como se elas representassem a totalidade da nossa existência.

Não se trata de fingir que as dificuldades não existem ou de romantizar a vida.

Os problemas do dia a dia são reais.

Mas eles não são toda a realidade.

Proteger o que nos mantém humanos

Talvez cuidar de nós mesmos, na vida atual, também signifique proteger o contato com tudo aquilo que não está se atualizando o tempo inteiro.

Caminhar sem transformar o passeio em conteúdo.

Ler sem precisar terminar rapidamente.

Ouvir um álbum inteiro.

Observar uma obra sem tentar imediatamente explicá-la.

Ficar em silêncio.

Olhar o movimento das folhas e perceber que existe um ritmo muito mais antigo do que o das notificações.

Esses momentos não são tempo perdido.

Eles devolvem perspectiva.

Lembram que somos mais do que aquilo que produzimos, resolvemos, compramos ou acompanhamos.

Lembram que existe uma imensidão de vidas, histórias, ecossistemas e gerações para além daquilo que ocupa a nossa semana.

Talvez essa seja uma das funções mais importantes da arte e natureza na vida moderna: nos tirar por alguns instantes do presente imediato e nos devolver a dimensão de algo muito maior.

Todas as preocupações continuam existindo quando volto para casa.

Mas alguma coisa muda.

Elas voltam ao tamanho certo.

Hoje, quem me lembrou disso foi uma figueira.