Reflexões, arte

Limites da percepção humana: quanto da realidade conseguimos perceber?

Camarão-louva-a-deus e os limites da percepção humana

Os limites da percepção humana ficam muito mais fáceis de compreender quando percebemos uma coisa aparentemente simples: existem aspectos reais do mundo acontecendo ao nosso redor que outros animais conseguem detectar e nós não.

Ontem eu estava assistindo a um vídeo do canal Estranha História quando surgiu uma pergunta que ficou na minha cabeça: nós, enquanto seres humanos, somos realmente capazes de perceber a realidade?

A resposta foi algo próximo de: não, absolutamente não.

De início, parece uma afirmação filosófica enorme. Daquelas capazes de nos levar para discussões sobre consciência, existência, realidade ou até sobre a própria natureza do universo.

Mas o que mais me interessou foi perceber que existe uma maneira muito mais concreta de chegar até essa questão.

Basta olhar para a natureza.

Os limites da percepção humana começam no próprio corpo

Nós costumamos experimentar aquilo que vemos, ouvimos e sentimos como se fosse simplesmente o mundo.

Abro os olhos e vejo uma árvore. Escuto um pássaro. Sinto o vento. Observo uma parede azul.

A sensação intuitiva é a de que estou recebendo aquilo que existe diante de mim.

Mas não é exatamente assim.

Antes de chegar à nossa consciência, o mundo precisa atravessar um organismo. Nossos olhos respondem apenas a determinadas faixas de luz. Nossos ouvidos captam somente determinadas frequências. Nosso cérebro recebe sinais específicos, processa essas informações e constrói a experiência que chamamos de realidade.

Existem frequências sonoras que não ouvimos.

Existem comprimentos de onda que nossos olhos não enxergam.

Existem propriedades da luz que estão fisicamente presentes diante de nós e que simplesmente não aparecem na nossa experiência visual.

O fenômeno continua existindo.

Nós é que não possuímos os instrumentos biológicos necessários para percebê-lo diretamente.

Talvez sejamos um pouco daltônicos diante da realidade

Uma comparação que me veio imediatamente à cabeça foi o daltonismo.

Hoje conseguimos produzir simulações aproximadas de como diferentes tipos de daltonismo afetam a percepção das cores. Duas pessoas podem estar diante do mesmo objeto, sob a mesma iluminação, ocupando praticamente o mesmo lugar — e ainda assim terem experiências visuais diferentes.

O objeto não precisa mudar.

A realidade física pode ser a mesma.

O que mudou foi o organismo que recebeu aquela informação.

Quando pensamos dessa maneira, é relativamente fácil entender que uma limitação biológica pode alterar aquilo que uma pessoa consegue perceber.

Mas existe uma consequência muito mais desconcertante dessa ideia:

Nós também temos limitações que não conseguimos experimentar como limitações, justamente porque nunca tivemos acesso àquilo que está faltando.

Uma pessoa que nunca enxergou determinada cor não sente, durante o dia, que existe um buraco visível diante dela. Aquela simplesmente é a experiência possível de mundo.

E talvez aconteça conosco exatamente a mesma coisa em uma escala muito maior.

O camarão-louva-a-deus e uma maneira diferente de enxergar

É aqui que aparece um dos animais mais interessantes para essa reflexão: o camarão-louva-a-deus, nome popular dos crustáceos conhecidos como estomatópodes.

Algumas espécies possuem sistemas visuais extremamente diferentes do nosso. Elas apresentam muito mais classes de fotorreceptores do que os seres humanos e conseguem detectar, entre outras coisas, luz ultravioleta e diferentes formas de polarização da luz.

São propriedades físicas do ambiente que existem independentemente de conseguirmos enxergá-las.

É comum encontrar a afirmação de que o camarão-louva-a-deus simplesmente “enxerga muito mais cores do que os seres humanos”. A explicação científica, porém, é mais interessante do que essa simplificação.

Um estudo publicado na revista Science mostrou que possuir um grande número de canais receptores não significa necessariamente distinguir cores próximas melhor do que nós. O sistema desses animais parece processar a informação visual de uma maneira bastante diferente da forma humana.

Você pode consultar o estudo no PubMed.

Isso muda bastante a imagem mental.

Talvez não devêssemos imaginar simplesmente um ser humano olhando para o mesmo arco-íris, mas com algumas cores extras acrescentadas entre o verde e o azul.

Estamos diante de outra maneira biológica de organizar a experiência visual.

E isso, para mim, é ainda mais fascinante.

A realidade está ali mesmo quando não conseguimos senti-la

O exemplo do camarão-louva-a-deus chama atenção porque seus olhos parecem quase alienígenas para nós, mas a visão é apenas uma pequena parte dessa história.

Diferentes espécies animais conseguem acessar informações ambientais que passam completamente despercebidas pelos seres humanos.

  • Morcegos utilizam ecolocalização para navegar e localizar objetos.
  • Golfinhos também utilizam sinais acústicos para interpretar o ambiente.
  • Alguns animais detectam campos elétricos produzidos por outros organismos.
  • Diversas espécies percebem frequências sonoras que estão fora da nossa faixa de audição.
  • Cefalópodes, como polvos e lulas, conseguem perceber a polarização da luz.

Experimentos sobre a percepção de luz polarizada em polvos existem há décadas e podem ser encontrados inclusive na literatura científica publicada pela Nature.

Esses exemplos não provam a existência de dimensões escondidas, universos paralelos ou qualquer explicação metafísica específica.

E nem precisam provar.

O que eles demonstram já é suficientemente extraordinário:

existem aspectos reais do ambiente aos quais não temos acesso sensorial direto.

Eles estão aqui.

O fenômeno físico está acontecendo.

Nós simplesmente não o sentimos.

A percepção humana é um recorte da realidade

Acho importante separar duas ideias que parecem parecidas, mas dizem coisas muito diferentes.

Uma delas seria afirmar:

“A realidade não existe como pensamos.”

Essa é uma afirmação filosófica enorme e abre uma discussão que ciência, filosofia e diferentes tradições de pensamento enfrentam há séculos.

Outra afirmação é muito mais simples:

“Aquilo que conseguimos perceber da realidade depende das capacidades sensoriais do organismo que somos.”

Essa segunda ideia não exige grande especulação.

Sabemos que ela é verdadeira.

É nesse ponto que os limites da percepção humana se tornam quase palpáveis.

Nossos sentidos não são janelas transparentes capazes de nos entregar tudo aquilo que existe. São sistemas biológicos especializados em captar determinadas informações do ambiente.

A realidade que experimentamos, portanto, não precisa ser falsa.

Ela pode simplesmente ser incompleta.

Como imaginar aquilo que nenhum ser humano jamais percebeu?

Existe um exercício mental que acho particularmente interessante.

Tente imaginar uma cor completamente diferente de todas as cores que você já viu.

Não uma mistura.

Não um tom mais intenso.

Não um azul esverdeado, um vermelho escuro ou alguma combinação possível dentro do nosso repertório.

Uma experiência cromática absolutamente nova.

É praticamente impossível.

Nosso cérebro tenta responder utilizando aquilo que já conhece.

Agora imagine que exista alguma propriedade da realidade tão presente quanto o vermelho, o som de uma buzina ou a textura de uma pedra, mas para a qual o corpo humano simplesmente não possui um sentido correspondente.

Não conseguiríamos apenas deixar de percebê-la.

Talvez nem conseguíssemos imaginar corretamente o que estamos deixando de perceber.

E sabemos que alguma versão disso já acontece.

A tecnologia amplia nossos sentidos, mas não nos transforma em outros animais

Existe uma diferença interessante entre saber que alguma coisa existe e experimentar essa coisa diretamente.

Não enxergamos luz ultravioleta, mas podemos construir sensores capazes de detectá-la.

Não escutamos determinadas frequências, mas podemos medi-las e convertê-las em sons que estejam dentro da nossa capacidade auditiva.

Telescópios, microscópios, radiotelescópios, sensores térmicos e inúmeros instrumentos científicos ampliam aquilo que conseguimos investigar.

Podemos converter o invisível em números.

Podemos transformar frequências em gráficos.

Podemos representar dados em imagens artificiais que finalmente se tornam compreensíveis para nossos olhos.

Mas ainda existe uma diferença entre compreender intelectualmente um fenômeno e saber como seria experimentá-lo diretamente através de outro aparato sensorial.

Podemos estudar a polarização da luz durante a vida inteira.

Ainda assim, continuamos não sabendo exatamente como é ser um animal cuja experiência visual cotidiana contém essa informação naturalmente.

Os limites da percepção humana também são um exercício de humildade

Talvez seja essa a parte da reflexão que mais tenha ficado comigo.

Existe uma tendência muito humana de transformar nossa experiência de mundo em medida da própria realidade.

Vemos determinadas coisas, então são essas as coisas que existem.

Sentimos determinadas coisas, então é assim que o mundo funciona.

Mas basta olhar para outros organismos para descobrir que nossa experiência é apenas uma das formas possíveis de relação com o mesmo ambiente.

Quanto mais aprendemos sobre a natureza, mais percebemos que existem fenômenos que sempre estiveram diante de nós sem que tivéssemos qualquer consciência deles.

E isso não diminui a experiência humana.

Para mim, faz justamente o contrário.

Torna o mundo muito maior.

O que ciência e arte podem ter em comum

Foi nesse ponto que essa reflexão começou a conversar diretamente com algo que me interessa muito: a arte.

Ciência e arte são coisas profundamente diferentes, com métodos e objetivos diferentes. Mas existe um movimento que as duas conseguem provocar.

As duas podem nos retirar, ainda que por alguns instantes, da impressão de que nossa forma habitual de olhar é a única possível.

A ciência faz isso quando revela fenômenos que nossos sentidos não conseguem alcançar sozinhos.

A arte faz isso quando apresenta uma paisagem, um rosto, uma cor, um objeto ou mesmo uma experiência cotidiana através do olhar de outra pessoa.

Uma pintura não precisa revelar uma nova frequência eletromagnética para mudar aquilo que enxergamos.

Às vezes ela simplesmente reorganiza o que já estava diante de nós.

Depois de conhecer determinada obra, fotografia, filme ou história, podemos voltar para o mesmo mundo e observá-lo de outra maneira.

Talvez seja uma das razões pelas quais escolhemos colocar arte dentro de casa.

Um quadro não é apenas um objeto ocupando uma parede.

Ele também pode funcionar como uma pequena interrupção no olhar automático.

Algo que nos faz perceber uma cor, uma paisagem, uma memória, uma época ou uma ideia que talvez passasse despercebida de outra forma.

O mundo pode ser maior do que a experiência que temos dele

No fim, a reflexão sobre os limites da percepção humana não precisa nos levar à conclusão de que aquilo que vemos é uma ilusão.

Talvez exista uma ideia muito mais interessante e muito menos radical:

o mundo que percebemos pode ser verdadeiro e, ao mesmo tempo, incompleto.

Nossos sentidos entregam um recorte.

Outros animais recebem outros recortes.

Nossos instrumentos científicos conseguem revelar partes que o corpo sozinho não alcança.

E ainda assim provavelmente continuaremos convivendo com enormes fronteiras entre aquilo que existe, aquilo que conseguimos medir e aquilo que somos biologicamente capazes de experimentar.

Há alguma coisa de muito bonita nisso.

Porque significa que, mesmo depois de milhares de anos observando o mundo, ele ainda consegue ser maior do que nós.

Não sabemos exatamente quanto da realidade conseguimos perceber.

Mas sabemos uma coisa com bastante segurança:

não percebemos tudo.

E talvez reconhecer isso seja menos uma limitação do conhecimento humano e mais um convite permanente à curiosidade.

À ciência.

À natureza.

À arte.

E à possibilidade de olhar novamente para aquilo que parecia completamente conhecido.

Essa relação entre arte, espaço e aquilo que escolhemos enxergar também faz parte das reflexões que queremos construir aqui na Quadro Para Decoração: não apenas sobre o que colocamos nas paredes, mas sobre como imagens, histórias e referências passam a fazer parte dos lugares em que vivemos.


Referências

Thoen, H. H.; How, M. J.; Chiou, T.-H.; Marshall, J.
Colour vision in mantis shrimps: understanding one of the most complex visual systems in the animal kingdom.

Consultar referência científica no PubMed

Percepção de polarização da luz em cefalópodes.
Estudos experimentais demonstram que polvos e outros cefalópodes conseguem utilizar informações de polarização que normalmente não fazem parte da experiência visual humana.

Consultar publicação na Nature